Joana Oliveira

11 Fevereiro, 2015

Em 1997 comecei o bacharelato de Turismo, no que era então a Escola Superior de Educação de Leiria. Pode dizer-se que foram vários os acasos que me levaram a ingressar nesse curso. Acasos marcados, também, pelas minhas parcas competências para a Matemática e a Geometria Descritiva, que me limitaram a entrada na área do design e das artes, que eram então, as minhas áreas de interesse. Houve também o acaso das limitações financeiras, que me fez ponderar as opções disponíveis na cidade onde tinha nascido e vivido – Leiria. Concorri ao curso de Turismo, que abria pela primeira vez esse ano e, quando vi o meu nome na lista de entrada, confesso, nessa altura, não fazer a menor ideia do que me aguardava. Na minha cabeça, Turismo era o mesmo que viagens, e se a área artística não seria a minha área profissional, as viagens poderiam ser uma alternativa suficientemente apeladora.

Não levei muito tempo a perceber que uma coisa e outra tinham pouco a ver. Estudar Turismo não era o mesmo que uma promessa de uma vida a viajar. Isso viria depois. Dos primeiros três anos de duração do bacharelato, recordo algumas disciplinas e alguns professores que me marcaram: como o professor José Maria Trindade, de Etnologia, um homem da Nazaré tão sábio quanto brilhante, que conhecia a magia da sua terra e das suas gentes e que me ensinou a olhar os usos e costumes dos outros, com olhos de ver. Os irmãos Marques da Cruz que, com a sua experiência e paixão, nos ensinaram o “bê-à-bá” da Gastronomia e dos Vinhos, cadeiras que dividiam entre si. Confesso que, no entanto, foi no terceiro ano que comecei verdadeiramente a gostar do curso, quando este ganhou um carácter mais prático e onde tivemos cadeiras que envolveram sobretudo trabalho de campo. Os professores que as lecionavam (José Artur, Pedro Pedrosa e João Teixeira) eram responsáveis por projetos bastante interessantes, que me fizeram compreender a aplicação prática daquilo que estudava. O estágio do fim de curso, onde fui com um colega, o Artur Cunha, de malas e bagagens, para Castanheira de Pera, um pequeno concelho nas franjas do distrito, e nos foi dada carta branca para darmos asas às nossa ideias – foi a forma perfeita para concluir aqueles três anos numa nota cheia de esperança. No quarto ano, a licenciatura avançou na vertente Ambiente (Turismo e Ambiente). Seis meses com disciplinas teóricas, seguidas por um estágio, um trabalho de fim de ano e a organização de um congresso de Turismo que trouxe gente de todo o país ao Auditório do IPL. Neste ano, destacou-se o papel da Professora Fernanda Oliveira e do Professor Edgar Lameiras, que mais do que professores, foram os nossos mentores, orientadores e amigos.

Ao final de quatro anos com o curso terminado, enviei, como muita gente, currículos. Surgiu a oportunidade de ir trabalhar para um hotel em Inglaterra, oportunidade que agarrei com as duas mãos. Apanhei um voo, fui à entrevista e fui seleccionada. O hotel era numa casa antiga do século XVII no meio do campo. Estive lá quase um ano, onde aproveitei para melhorar o domínio da nova língua e habituar-me ao novo país. Encarei o meu trabalho como rececionista como uma stepping-stone e continuei a enviar currículos, sempre com os horizontes abertos para novas oportunidades, particularmente em organização de eventos. Consegui um emprego numa empresa a marcar conferências e alojamento a grandes companhias como a Coca-Cola, Kodak…mas era demasiado tempo passado em frente ao computador e agarrada ao telefone. Eventualmente, consegui a posição com que sempre sonhara: coordenadora de eventos, numa empresa de eventos em Londres. Trabalhei com grandes corporações como PriceWaterHouse Coopers, Ernst & Young, Credit Suisse, Financial Times, organizando as suas galas, conferências, lançamentos de produtos. Eventos que tiveram lugar nos hotéis e edifícios mais emblemáticos de Londres, como o Museu de História Natural, a Torre de Londres, o Museu Nacional e até na roda de Londres. Viajei pela Europa, fiquei em alguns dos melhores hotéis das suas capitais, jantei em alguns dos melhores restaurantes de Londres, mas depois de dois anos, compreendi que aquele não era, afinal, o meu emprego de sonho. Demasiada pressão, stresse, noites sem dormir, muitas horas não remuneradas, pouco reconhecimento, ausência de vida própria. Não era ali que queria estar e era altura de ponderar as minhas opções e fazer algo que pretendia fazer há muito tempo: viajar. Despedi-me e aceitei um trabalho como rececionista num hotel, onde me ofereciam alojamento, para juntar dinheiro. Fui promovida a supervisora e ao final de um ano de trabalho, tinha juntado dinheiro para fazer a viagem que ansiava. Despedi-me, mais uma vez, determinada a acompanhar um amigo – Nuno Pedrosa – que pedalava o continente Americano de Norte a Sul, e que mais tarde se tornou no meu companheiro. Nunca tinha feito nenhuma viagem de bicicleta e fui aterrar no meio das montanhas do Equador, disposta a pedalar até onde houvesse vontade e dinheiro. Passado um ano, cheguei à Argentina, sem um tostão no banco e com uma certeza redutora: as viagens seriam o meu mote de vida. Regressei a Inglaterra. As portas do hotel onde tinha trabalhado voltaram a abrir-se, desta vez com uma posição no Departamento de Vendas e Marketing, recém-criado. Mas um ano mais tarde, surgiu a oportunidade de trabalhar no maior operador turístico britânico especializado em viagens na América do Sul, onde fiquei dois anos como consultora de viagens.

A meta e o destino estavam marcados e depois de quase três anos de regresso a Londres e à vida laboral, era altura para mais uma partida. Desta vez, o regresso a casa a partir dos Antípodas, mas de bicicleta, uma viagem que levou quase três anos a concluir. Encontro-me agora a escrever o livro sobre esta viagem, enquanto pondero os próximos passos a dar, para poder continuar a fazer aquilo que mais gosto: viajar! Durante esta viagem, mantivemos um site www.globonautas.net o qual continuamos a actualizar, dentro do possível.

A vida dá muitas voltas. Somos nós quem gere a direcção dessas voltas, mesmo que nem sempre assim o pareça. O curso de Turismo foi uma mais valia no meu currículo, embora, nem sempre os conhecimentos lá adquiridos se tenham encaixado nos necessários à vida laboral real. No entanto, a elasticidade no raciocínio, a entrega aos projectos, a aprendizagem que adquirimos ao frequentar um curso superior, os amigos que lá fazemos, a capacidade de trabalhar em grupo, acompanham-nos o resto da vida, são ferramentas valiosas, que enchem as nossas vidas com possibilidades.

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